ALCIONE,
UM ENCANTO DE PESSOA, A ESTRELA MAIOR DO SAMBA..
Que o nordeste foi - e sempre continuará sendo, graças à Deus - uma terra abençoada, cultural e artísticamente falando, um celeiro de grandes astros e estrelas, especialmente com relação a nomes de peso da MPB, todos nós sabemos. Ainda mais quando lembramos que São Luís do Maranhão é o berço de uma das maiores sambistas que o Brasil nos deu nos últimos tempos, a qual tem levado esse ritmo tipicamente nacional para além de nossas fronteiras cantando em palcos consagrados dos EUA, Europa, África, Oriente Médio e Japão desde que foi descoberta (e lançada para os holofotes da fama) no programa "A Grande Chance" do (já falecido) apresentador Flávio Cavalcanti. Melhor início Alcione, a nossa Marrom, não poderia ter tido, pois, para passar com reconhecimento, glória e circunstância pelo crivo do competente júri daquele programa, só mesmo quem tinha talento - e talento abundante, não bundante - e, no caso de Alcione, ritmo nos pés e samba na alma, na voz. (A dela, de ouro e não de latão, "gralha", como muitos por aí). Se Flávio fosse vivo hoje em dia muitas porcarias que tocam por aí nas rádios, shows vizinhanças não teriam se criado para denegrir, desmoralizar o bom nome da MPB. Certamente muitos caminhões-lixeiras já teriam tomado o caminho certo abarrotados de CDs quebrados pelas mãos rigorosas do famoso mestre, o qual não veria neles valor artístico algum, a não ser um atentado a arte milenar chamada música. É comum quando vai-se estrear uma peça os atores dizerem uns aos outros: "muitas m... para você". Frase que - e muitos irão concordar comigo - deveria ser dita ao público quando certos cantores (?), bandas e afins fossem subir ao palco ou se apresentarem em programas de televisão. (Aliás, o que leva os produtores a mostrarem esses talentos (?) que não acrescentam nada a cultura? Se eles soubessem que muitos controles remotos são usados nesta hora "histórica" da música para trocar de canal!...) Se bem que, a depender da capacidade intelecto-cultural de certas pessoas, muitos se sentiriam em casa e sentariam-se confortávelmente no trono da mediocridade e ignorância artística para "aplaudir" com entusiasmo - e conhecimento de causa - o show (?) no camarote da falta de bom gosto.
Alcione Dias Nazareth, nascida em 21.11l.1947, com os (bons) ensinamentos musicais aprendidos com o pai, o militar e professor de música João Carlos Dias Nazareth, mostrou desde cedo que a moreninha brejeira e faceira da terra de São José do Ribamar não veio ao mundo à passeio. Tinha o samba não somente nos pés (e no coração) mas, principalmente, no gogó; aliás, um gogó de ouro, prata e bronze que atinge com extrema facilidade todas as notas musicais fazendo-se ouvir com uma nitidez impressionante, mesmo sem a ajuda do microfone (se fosse o caso), na última fileira do teatro. Quando ela descobriu esse dom e que dele faria a sua vida, seu "ganha pão", que escreveria sua história como uma das maiores intérpretes da MPB, outras já tinham trilhado o mesmo caminho e faziam sucesso nas rádios e long-plays (lps) da vida, a exemplo de Elza Soares, outra morena que, com talento e balacubaco (nossa! que expressão mais antiquada!), já encantava platéias e seduzia Mané Garrincha, as pernas mais poderosas do futebol brasileiro de todos os tempos. Ao longo de sua discretíssima vida afetiva - talvez decepcionada com a falta de lealdade, a traição que corre nas veias de todos os homens - a Marrom mais branca que já vi em toda minha vida não se preocupou em cantar (e encantar) um único fã, mas milhões de admiradores que desejavam - e ainda desejam, of course! - serem embalados por sua voz singular, inimitável. Alcione é uma deusa, um mito, uma verdadeira lenda viva da MPB e, mesmo antes de subir ao palco e soltar a voz, percebe-se nos bastidores todo seu carisma, a luz que emana do seu ser elegante e perfumado. Ela brilha como pessoa e esse brilho transforma-se numa luz intensa, forte, que ofusca qualquer um que se apresente com ela. Alcione não rouba a cena. Ela é a cena. Antes, durante e, principalmente, na apoteose do espetáculo quando todos se levantam para aplaudí-la, praticamente ignorando os outros artistas que se apresentaram ao seu lado. Mesmo sendo outra mulata de talento reconhecido nacional e internacionalmente como Margarete Menezes. Esta, "com muita honra" dividiu o palco com a maranhense no show "Canto pela Paz" no último domingo (dia 17) aqui no - para mim - Teatro (Municipal, deveria ser pela grandiosidade e importância, só falta as frisas e camarotes) Castro Alves. Apesar de algumas imperfeições técnicas (disfarçadas aos olhos dos leigos, desatentos) e deslizes na atuação de um ou outro que dividiu o palco com elas, Alcione "deu" com (muita) generosidade artística e grandeza de alma um pouco de sua luz para a "maga" baiana. Esta, por sua vez, não decepcionou e, como sempre, deu um "banho" de (boa) musicalidade baiana.
Com uma personalidade forte e determinada a se fazer respeitar por seus próprios méritos, sem desejar espelhar-se (ou imitar) quem quer que fosse, Alcione mostrou para a platéia de Flávio Cavalcanti e para todo o Brasil um jeito novo de cantar o samba com uma postura impecável de "prima donna" (?) do ritmo, a qual também sabia - como o sabe muito bem até hoje - tocar um dos instrumentos mais complexos que existe: o trompete. Para desagrado de dona Felipa, sua mãe, a qual desejava que a filha se tornasse uma exímia pianista. Quis o destino, sábio como sempre, que Alcione mostrasse à mãe que estava certa em sua escolha musical e lhe desse muito orgulho tornando-se - além de cantora - uma das maiores compositoras e instrumentistas que São Luís exportou do Maranhão para o Brasil e, consequentemente, o mundo. Tanto que recebeu ao longo da carreira - depois de anos batalhando por "um lugar ao sol" - títulos e honrarias como a Ordem do Rio Branco, a mais alta comenda do país, e a Medalha Pedro Ernesto da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Quem disser que não gosta de samba e pagode - o bom e verdadeiro - nunca assistiu um show de Alcione, ouviu um de seus discos ou presenciou teatros e casas de espetáculo, daqui e de fora, levantar em peso para requebrar os quadris ao som de suas músicas. Canções - verdadeiras obras-primas do samba - que fazem parte da sua discografia, desde A Voz do Samba (1975) até Acesa (2009), passando por preciosidades como Morte de um Poeta, Pra que Chorar, Alerta Geral, Gostoso Veneno, E Vamos à Luta, Dez Anos Depois, Fogo da Vida, Da Cor do Brasil, Emoções Reais, Promessa, Profissão: Cantora, Valeu - Uma Homenagem a Nova Geração do Samba ( que lhe rendeu o disco de ouro em 1997), Nos Bares da Vida (ao vivo) e Raridades, dentre outros. Uma larga experiência, depois de anos de obstinação e trabalho, que lhe deu o direito de interpretar (em 2007) o papel da cantora americana Lady Brown na minissérie global "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes".
O Brasil tem muitos que (dizem) fazem samba. Mas (qause) nenhum deles, ou delas, são verdadeiramente sambistas como a Marrom. Ao vivo ou não, se fazendo presente ou, simplesmente, sendo homenageada em qualquer evento, Alcione é um dos poucos nomes da MPB que consegue lotar os espaços dedicados à boa música em qualquer dia da semana. Não foi à toa que na década de 70, ao lado de Paulo Moura, inaugurou o legendário Teatro João Caetano, no Rio (um espetáculo de casa) com o excelente projeto "Seis e Meia".
Au-revoir para todos que me criticam ou aplaudem. Na próxima quinta-feira, se Deus quizer, aqui estarei. Eu aqui e vocês daí. C'est la vie!
SANFERR, 21.07.2011
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