quinta-feira, 4 de agosto de 2011

SONHOU O SONHO DO FILHO, VENDEU A CASA E FOI MORAR DE ALUGUEL. GENIAL!

                                                       ACESSOS
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                                                 foto by REJANE CARNEIRO
                                               
                                             DONA LÚCIA ROCHA,
               A MÃEZONA DE UM "MALUCO" (?) QUE FEZ ESCOLA... E HISTÓRIA.
                                         ONTEM, HOJE E SEMPRE.

     "O Rio de Janeiro continua lindo... O Rio de janeiro, fevereiro e Tempo Glauber... Alô, alô, dona Lúcia... aquele abraço!"... A cidade (mais que) maravilhosa - magnificamente debruçada diante da cinematográfica baía da Guanabara, uma visão belíssima, digna de todos os planos, panorâmicas e closes possíveis, cercada por montanhas e banhada pelas mais belas praias do litoral brasileiro - abriga em seu seio um espaço cultural totalmente dedicado à memória de um dos maiores gênios da sétima arte nacional nas últimas décadas: o Tempo Glauber. Sob seu teto as mais de cem mil obras catalogadas do baiano Glauber Rocha (filmes, sinopses, roteiros, esboços, poemas, peças de teatro, rascunhos, fotografias, troféus, recortes de jornais e revistas, cartas, postais, documentos, etc.) foram reunidas com muita dedicação e carinho por uma mulher pequenina - mas gigante no coração, generosidade - simples no jeito de ser e se apresentar, sem luxos, vaidades desnecessárias às grandes mulheres ou maquiagem, especialmente as de caráter (como ela, só minha mãe e tia Daisy). Esta incomparável criatura, além de mãe, era a grande (e talvez a única) verdadeira amiga do cineasta baiano. Sim, por que somente uma mãezona - como poucas, já que a maioria dos pais esperam, no final da vida, "cobrar veladamente", fazer com que os filhos paguem (?) com juros e correção monetária tudo o que doaram, até o amor, pois para eles filho significa caderneta de poupança e não um ser humano que recebeu e quer dar amor gratuitamente - fáz o que essa mulher guerreira e visionária fez. Depois de ter passado por várias atribulações e dissabores na vida, dona Lúcia passou por cima de todos os significados desta palavra tão pequena, mágica - mãe - e mostrou o que é amar, doar-se, sem esperar nada em troca: vendeu todos os imóveis para financiar os "sonhos malucos" do filho extremamente talentoso, indo morar de aluguel. E o que é pior: precisou abrir um pensionato (em Salvador, nos Barris) na época para suprir suas necessidades mais prementes. Coisas de uma criatura predestinada, altruísta, sinônimo de total generosidade e amor ao próximo, já que muitos saciaram sua fome e sede sem um níquel no bolso para pagar uma simples refeição, como aconteceu com Paulinho Boca de Cantor e os Novos Baianos, entre tantos outros que hoje são "grandes, famosos" e a consideram uma mãezona. Importantes nomes do cinema e das artes brasileira cruzaram a porta de sua casa - tanto em Salvador como na rua das Palmeiras, em Botafogo, no Rio - e deliciaram-se com seus quitutes, inclusive o famoso vatapá, como Cacá Diegues, Paulo César Sarraceni, Leon Hirszman, Joaquim Ppedro de Andrade, Arnaldo Jabor, Nélson Pereira dos Santos e os "imortais" João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Ao passo que Glauber era (pasmem!) introspectivo, recluso em seus pensamentos e idéias (tão geniais como incompreendidas), dona Lúcia adorava o movimento, o entra e sai. O Cinema Novo nasceu (acreditem se quizer) na cozinha dela. Enquanto de seu fogão saíam delícias gastronômicas da riquissima culinária baiana, do seu abençoado ventre nasceram valorosos talentos como, além de Glauber, Anecy e Marcelina. E do coração brotou um amor incondicional por Ana Lúcia (filha do marido Adamastor), com quem sempre teve um relacionamento de extremo respeito, admiração e cumplicidade. Um dos filhos de Ana Lúcia (João) trabalha no Tempo Glauber.
     Lúcia Mendes de Andrade Rocha, nascida em 16.01.1919 em Vitória da Conquista, filha de um rigído fazendeiro protestante (vixe! imaginem, naqueles idos!) o qual, entre outras "pérolas", dizia que "não tinha criado filha para ser puta", só por que a jovem Lúcia queria seguir a carreira teatral. O legado que Glauber deixou com verdadeiras obras-primas do cinema, a exemplo de Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), O Leão de 7 Cabeças (1970), Cabeças Cortadas (1970), História do Brasil (1974), A Idade da Terra (1977), podia não ter tido esse valor intelectual e cultural - mundialmente reconhecido - se o criador do Cinema Novo não tivesse o apoio material, físico e psicológico dessa poetisa, figurinista e (também) atriz, já que dona Lúcia atuou em vários filmes. Ter talento é um dom - para poucos previlegiados - de Deus. Agora, ter o apoio da família que acredita (até de olhos fechados) nos ideais considerados pelos demais - invejosos, incrédulos e medíocres - como malucos, "sonhos de uma (única) noite de verão", é coisa para pouquissimos mesmo. Dona Lúcia nunca deixou o filho sonhar, caminhar, "correr atrás", pedir uma chance sózinho. Com ele foi bater em portas, buscar apoio, patrocínios (quando os tinha) para bancar produções que hoje orgulham o país, a Bahia e fáz "corar de vergonha", arrependimento, quem o chamou - a imprensa (inacreditável!) - de impostor, ignorante, sem cultura, maluco, no lançamento de A Idade da Terra... (?) ... Glauber Rocha é uma marca, uma legenda, um símbolo eterno do cinema brasileiro e mundial. Um baiano que fez escola e hoje poucos cineastas nascidos na terra do Senhor do Bonfim está à sua altura. Um desses raros é o genialíssimo - e também considerado por muitos como lunático - Edgar Navarro, diretor do premiadíssimo SuperOutro (1988).
     Em junho, na Décima edição do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, evento que aconteceu no legendário Teatro João Caetano no Rio de Janeiro em meio a todas aquelas celebridades, o momento mais emocionante foi quando dona Lúcia subiu ao palco para entregar o Prêmio Especial de Preservação para a Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP). A platéia delirou e ela se comoveu, óbviamente lembrando-se do filho amado e tudo que viveram, sofreram, para chegar aonde chegaram. Depois de uma trajetória cheia de altos e baixos, de lágrimas e sorrisos, de bons e maus momentos compartilhados com falsos e verdadeiros amigos. C'est la vie! Fáz parte do show.
     Quem teve a honra de conhecer e conviver com dona Lúcia vai guardar para sempre o exemplo de uma mulher obstinada, persistente ( "água mole em pedra dura tanto bate até que fura" ), capaz de fazer inúmeras vezes o trajeto Rio-Salvador, de ônibus, para salvar da repressão o acervo milionário do filho. Uma dama movida por sonhos e paixões, capaz de (mesmo sofrendo humilhações) honrar o casamento com Adamastor, sem apagar do coração o verdadeiro amor de sua vida: Guilardo. Um amor que ficou anos e anos adormecido, vivo apenas em suas lembranças e só voltou à tona no - coisas do destino - dia do enterro de Glauber, quando Guilardo apareceu na igreja inesperadamente, surpreendendo quem nunca mais falara no nome dele, imaginava-o morto. Cinquenta anos depois. Viúvo e ainda perdidamente apaixonado por dona Lúcia. (Que romance fantástico esse amor não daria!). Ambos decidiram aproveitar o tempo perdido e noivaram. Só que (ingratidão do deus Eros?) ele morreu no dia do noivado, enquanto dona Lúcia voava para Nova Iorque. Ela se convenceu, então, que estava marcada pela vida - ou não seria morte? - para sofrer as perdas de tantos entes queridos. Os filhos e o marido num espaço de quatro anos e depois àquele que, mesmo décadas afastado, distante, soube preservar no fundo do coração o amor verdadeiro por uma pessoa especialíssima que marcou sua juventude, apesar de todas as perseguições e difamações de quem os queria ver separados. E conseguiram.
     Assim com dona Canô Veloso (outra fantástica matriarca), Lúcia Rocha merece - por feitos e méritos próprios - ter seu nome, sua "marca", registrada para a posteridade em monumentos públicos da boa terra, já que a Bahia deve (e muito) a essa conquistense e pouco (ou quase nada) foi feito para homenageá-la. Não por ela ser a mãe de Glauber e Anecy. A luta desta incansável mulher nunca acabará, até que a Bahia - tão perseguida culturalmente - mostre que temos real valor artístico e intelectual, apesar de, atualmente, por conta de certos talentos (?) "bundantes" e sem noção, desconfiômetro, estejamos sendo acintosamente massacrados musicalmente, colocados no ridículo posto de bobos da corte no reino da MPB por pseudos produtores musicais (?) que tem o bom gosto no trono da mediocridade, os ouvidos furados pelo som burramente ensurdecedor de uma nota só e consequentemente - para eles o manjar dos deuses - os bolsos abarrotados por uma multidão que pula lá, pula cá, enche a cara, briga, volta para casa de buzú e sem um níquel nos (deles) bolsos. (Se é que me entendem!).
     As "cabeças pensantes" desta terra que gerou filhos como Caetano, Gil, Capinam, Dias Gomes, ACM, Pirajá da Silva, Castro Alves, Rui Barbosa, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, dentre centenas de outras figuras ilustres, precisam se unir para inaugurarmos o mais rápido possível o Tempo Glauber Bahia, pois, ao contrário de uns e outros conterrâneos por aí - inclusive quem fica desavergonhadamente na televisão dando pitacos em assuntos futebolísticos (e deveria estar fazendo a única coisa para o qual é capaz, jogar) com um palavreado de meter vergonha aos analfabetos (coitados!) de plantão - Glauber Rocha foi um talento "abundante". Para dar, vender, emprestar... e envergonhar quem não foi prestigiado por Deus com esse dom.
     Au-revoir para todos que me criticam ou aplaudem. Na próxima quinta-feira, se Deus quizer, aqui estarei. Eu aqui e vocês daí. C'est la vie!

                                                                                                                                                   SANFERR, 04.08.2011

a ESFINGE:
     "Eles tem a cultura, a sabedoria, mas eu fico com a minha loucura, porque os loucos herdam a razão".
                              GLAUBER ROCHA (1939-1981) intelectual e cineasta baiano, criador do Cinema Novo, à sua mãe.


de SANFERRPRESS para todos os leitores e colaboradores (patrocínios, doações):

     Gostaria de dizer a certas pessoas, as quais, por este ou aquele motivo, não admiram meu trabalho semanal aqui na internet que, enquanto perdem tempo enviando e-mails, SMS e (até) alguns telefonemas extremamente deselegantes, com palavras chulas, por que não "dão a cara a tapa" e fazem como muitos que são corajosos o suficiente para postar seus comentários aqui na home-page? Infelizmente, sou obrigado (também) a descer ao nível de vocês, ser deselegante e dizer-lhes que falar mal, inventar, caluniar, é fácil. Basta ter uma boca maldita e uma língua ferina. Agora, apresentar provas... Este é o típico comportamento de quem - perdoe-me todos vocês, amigos, colaboradores e admiradores - vive movido pela inveja e raiva de quem tem algo a mostrar, de quem fáz um trabalho honesto, inteligente, digno e competente, como a coluna SANFERRPRESS. Sinto-me mal, constrangido em ter de falar nestes termos, mas precisava dar esse recado. Se toquem.
     Por outro lado, estou devendo há muito tempo um agradecimento público as diversas personalidades do meio social, artístico, político, empresarial e religioso, inclusive as comunidades brasileiras em diversas partes do mundo, Embaixadas e consulados, os quais - graças ao meu intenso trabalho de divulgação, enviando e-mails, SMS, cartas - estão acompanhando a coluna SANFERRPRESS. Em especial, meus sinceros agradecimentos ao Blog do Planalto, Casa Civil da Presidência da República, governos Estaduias e Municipais, Senado, Câmara dos Deputados, STF (Superior Tribunal Federal) nas pessoas dos Eminentes Senhores Ministros, Ministério da Cultura, Assembléias Legislativas, a Associação Nacional de Jornais, Academia Brasileira de Letras. Muito obrigado pela atenção. Sei que com o apoio de todos vocês meu humilde trabalho será cada vez mais conhecido.
     Enfim, iniciamos a contagem regressiva para a Copa 2014. E a cidade (mais que) maravilhosa, num dia esplendoroso e histórico, soube receber com a elegância, a classe e o glamour de sempre todos os povos, convidados ou não para o evento, anônimos e famosos, autoridades e a multidão que encheu as ruas da zona sul alegremente, vibrando como se fosse o dia da abertura da Copa do Mundo.
     Uma pergunta se fáz necessária e não quer calar: vocês observaram como somente talentos "abundantes" foram escalados para abrilhantar a festa e mostrar ao mundo que somos uma nação de extremo bom gosto? A imprensa internacional comentou, o povão nas ruas também, o verdadeiro show de boa música dado por Ivan Lins dividindo o palco com Ana Carolina (a cantora preferida da presidente Dilma Rousseff), a comoção geral causada pelo neto de Tom Jobim (o próprio num telão "duetando" com Frank Sinatra), além da excelente Orquestra Sinfônica de Heliopólis ao lado da baianíssima Ivete Sangalo - homenageada nesta coluna na quinta-feira de carnaval - que deram um banho de mistura de gêneros musicais. Para tudo ter saído ainda mais perfeito, por que não convidaram Gal Costa para cantar "Aquarela do Brasil"? Todos podem fazê-lo, mas como ela... ninguém. Graças à Deus - ao menos naquele dia - os talentos (?) "bundantes" não apareceram para "presepar" (e não cantar, já que isso eles não tem competência para fazer) envergonhando a nação diante do mundo com suas danças indecentes e músicas (?) cheias de duplo sentido - e bom gosto (ops!) nas letras. (Se é que me entendem!)...
     Será que em 2014 - Deus permita que sim - mostraremos outra vez o que temos de melhor? A nata da nata?

                                                                                                                                                                                    SANFERR, 04.08.2011

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                                                        P    A     T     R     O     C     Í     N     I     O

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A PERFECTIONIST THE TALK OF THE TOWN

  

                                                     COLIN FIRTH, 
                 CONDECORADO PELA RAINHA, APLAUDIDO PELO POVO,
                         UM ATOR DIGNO DO BANQUETE DO OSCAR 2011.

     Às vezes o cinema hollywoodiano nos surpreende e proporciona raríssimos (e preciosos) momentos de intelectualidade, cultura - fora do terrível (e, infelizmente, com bilheteria garantida) padrão violento e sanguinário - quando os roteiristas colocam os neurônios para funcionar (e trabalhar à favor do bom gosto) transformando verdadeiras obras-primas da literatura mundial, em filmes dignos, senão do Oscar, mas, no mínimo, de outras importantes premiações da sétima arte. Eu estava esperando acabar de ler "O Discurso do Rei" - com o sugestivo sub-título "Como um Homem Salvou a Monarquia Britânica", de Mark Logue e Peter Conradi, publicado aqui no Brasil com o respeitado selo da José Olympio Editora - para comparar o livro com o filme e escrever esse artigo (antes que as "bocas malditas" digam que o Oscar aconteceu bem lá atrás e somente agora estou falando no assunto). O livro é excelente e o filme fáz jus a história, literalmente falando. A narrativa literária é recheada de dados históricos, a qual serviu de base para um dos melhores roteiros já escritos, tanto que (também) foi premiado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, além de outras estatuetas (importantíssimas) para Melhor Direção e Melhor Ator para o britânico Colin Firth.
     O título acima - Um Perfeccionista na Boca do Povo - traduz todo o trabalho (britânicamente preciso na concepção de um bom ator) e o resultado alcançado por esse intérprete de primeiríssima grandeza ao ponto de ser recentemente homenageado pela rainha Elisabeth II com o título de comandante da Ordem do Império Britânico. Uma justa homenagem, já que Colin se superou dando vida a um dos personagens mais emblemáticos da recente história da realeza inglesa: o rei George VI, pai da atual rainha. A estória relatada no livro com detalhes assombrosos (e até, de certa forma, picantes), interpretada na telona por grandes nomes do teatro é simplesmente emocionante: na década de 30 - por causa do escândalo que envolveu seu irmão mais velho, Edward VIII, o qual havia abdicado do trono para se casar com uma plebéia, a socialite americana (tão feiosa como elegante, culta) Wallis Simpson - o princípe Albert (depois George VI) foi coroado como rei da Inglaterra apesar de gago, introvertido e sem o menor carisma. Mas, ajudado por sua mulher, a rainha Elisabeth (mãe da atual, já falecida) e pelo fonoaudiólogo Lionel Longue, ele transformou-se no rei que levou a Inglaterra à modernidade, sendo aplaudido e respeitado por seus súditos. No filme, Colin Firth fáz o papel do monarca britânico, Geofrey Rush (Lionel) e Helena Bonham Carter (a Rainha Mãe).
     Sempre gostei de frequentar o escurinho do cinema (no bom sentido, Rita Lee, chupando - ops! - drops de anis e tudo!) e últimamente, por conta desta coluna, tenho ido com mais frequência, principalmente nas pré-estréias e avant-premiéres. Sinto que - apesar do que dizem as tais "bocas malditas" (olhe elas aí de novo, meu povo!) - tanto o cinema nacional (temos bons exemplos recentes com Cilada.com e O Assalto ao Banco Central, ambos em exibição, sendo que o último é um excelente trabalho de estréia como cineasta do diretor de TV Marcos Paulo) como também o internacional, estão vivendo dias de glória. Bons filmes foram apresentados ao público nos últimos meses como "Bravura IndÔmita" (True Grit, Eua, de Ethan e Joel Coen) com Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Bolin, "Abutres" (Carancho, uma co-produção da Argentina, Chile, França e Coréia do Sul, de Pablo Trapero) com Ricardo Tarin, "Comer, Rezar, Amar" (Eat Pray Love, de Ryan Murrphy) com Julia Roberts, Richard Jenkins e Javier Bardem, baseado - também li o livro - no romance de Elisabeth Gilbert, além de "Lixo Extraordinário" (documentário de João Jardim, vencedor dos prêmios Sundance e Berlim). Sem falar na imperdível comédia romântica "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos" (You Will a Talk Dark Strenger) de Woody Allen, com Antonio Banderas e Anthony Hopkins. Desde - nossa, quanto tempo! - "Bar Esperança, o Último que Fecha" (1983) e "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" (não me recordo o ano), o primeiro de Hugo Carvana, com ele próprio, Marília Pêra e Silvia Bandeira no elenco, pouquissimos roteiros (adaptados ou originais) mereceram o aplauso - de pé! - dos cinéfilos. A maioria dos cineastas - talentos ou não, querendo imitar, mas sem conseguir, a genialidade do baiano Glauber Rocha - "pecam" pelo excesso de panorâmicas em locações fantásticas, belíssimas, esquecendo-se do essencial: a estória, os diálogos. (Se bem que, no caso da telona, a imagem conta bastante; mas nunca ter a pretensão de colocá-la acima das palavras, senão o filme torna-se seco, vazio, dando-nos a impressão que voltamos a pré-história cinematográfica).
     "The King's Speech" ou, traduzindo, "O Discurso do Rei", magistralmente dirigido por Tom Hooper (um diretor de extremo bom gosto e perfeição artística, técnica) é um desses filmes que ficarão guardados na (boa) memória de quem sabe o que é cinema por séculos, milênios, justamentes por que o ator e o personagem principal completam-se, confundem-se, como se um não existisse sem o outro. Como se isto fosse possível numa estória não ficcional. (Se é que me entendem!). Outros exemplos - de atuações únicas, inigualáveis - o cinema já nos deu com Humprey Bogart (Casablanca), Vivien Leigh (...E o Vento Levou), Roger Moore (OO7), Anthony Hopkins (Canibal), Johnny Weissmuller (Tarzan), Elisabeth Taylor (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), Richard Harris (Abraão), Colin Feore (o excelente Julius Caesar de Império), Charlton Heston e Yul Brynner (Os Dez Mandamentos), Laura Soltis (Amizade Criminosa), Fernanda Montenegro (Central do Brasil), Marilia Pêra (Pixote), Sônia Braga (Gabriela e A Dama do Lotação) e Leonardo Villar (O Pagador de Promessas), além de outros.
     Colin Andrew Firth, casado com Livia Giugglioli, não é apenas mais um ator britânico com formação clássica em dramas e comédias que ganhou notoriedade por causa do Oscar. Ele tem história, anos e anos de batalha, obstinação, "correndo atrás" de quem lhe desse uma oportunidade desde que iniciou em 1984. Uma carreira que inclui sucessos como Bridget Jone's Diary (O Diário de Bridget Jones), Bridget Jones: The Edge of Reason (Bridget Jones no Limite da Razão), The Importande of Being Ernest (A Importância de ser Ernesto), Nanny Mcphee (A Babá Encantada), dentre outros. É óbvio que a premiação com a estatueta mais poderosa da sétima arte lhe trouxe o tão merecido (e suado) reconhecimento e glória, mesmo ele já tendo sido indicado em 2010 pelo filme A Single Man com Julianne Moore. O súdito de Sua Majestade, a rainha Elisabeth II, certamente ainda dará mais orgulho aos ingleses, já que àquele país sabe dar valor, homenagear e endeusar quem ultrapassa suas fronteiras mostrando talento. O tempo - e os filmes que virão - mostrará que "sir" Laurence Olivier, com toda sua genialidade e técnica teatral, não foi o único a seduzir as câmeras.
     Au-revoir para todos que me criticam e aplaudem. Na próxima quinta-feira, se Deus quizer, aqui estarei. Eu aqui e vocês daí. C'est la vie!

                                                                                                                                                                    SANFERR, 28.07.2011

a ESFINGE:
     "Todos os dias são do caçador. Só o último dia do caçador é o da caça".

                                                       STANISLAW PONTE PRETA (1923-1968) escritor e dramaturgo carioca.


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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A VOZ DO ( BOM E VERDADEIRO ) SAMBA


                                                         ALCIONE,
              UM ENCANTO DE PESSOA, A ESTRELA MAIOR DO SAMBA..


     Que o nordeste foi - e sempre continuará sendo, graças à Deus - uma terra abençoada, cultural e artísticamente falando, um celeiro de grandes astros e estrelas, especialmente com relação a nomes de peso da MPB, todos nós sabemos. Ainda mais quando lembramos que São Luís do Maranhão é o berço de uma das maiores sambistas que o Brasil nos deu nos últimos tempos, a qual tem levado esse ritmo tipicamente nacional para além de nossas fronteiras cantando em palcos consagrados dos EUA, Europa, África, Oriente Médio e Japão desde que foi descoberta (e lançada para os holofotes da fama) no programa "A Grande Chance" do (já falecido) apresentador Flávio Cavalcanti. Melhor início Alcione, a nossa Marrom, não poderia ter tido, pois, para passar com reconhecimento, glória e circunstância pelo crivo do competente júri daquele programa, só mesmo quem tinha talento - e talento abundante, não bundante - e, no caso de Alcione, ritmo nos pés e samba na alma, na voz. (A dela, de ouro e não de latão, "gralha", como muitos por aí). Se Flávio fosse vivo hoje em dia muitas porcarias que tocam por aí nas rádios, shows vizinhanças não teriam se criado para denegrir, desmoralizar o bom nome da MPB. Certamente muitos caminhões-lixeiras já teriam tomado o caminho certo abarrotados de CDs quebrados pelas mãos rigorosas do famoso mestre, o qual não veria neles valor artístico algum, a não ser um atentado a arte milenar chamada música. É comum quando vai-se estrear uma peça os atores dizerem uns aos outros: "muitas m... para você". Frase que - e muitos irão concordar comigo - deveria ser dita ao público quando certos cantores (?), bandas e afins fossem subir ao palco ou se apresentarem em programas de televisão. (Aliás, o que leva os produtores a mostrarem esses talentos (?) que não acrescentam nada a cultura? Se eles soubessem que muitos controles remotos são usados nesta hora "histórica" da música para trocar de canal!...) Se bem que, a depender da capacidade intelecto-cultural de certas pessoas, muitos se sentiriam em casa e sentariam-se confortávelmente no trono da mediocridade e ignorância artística para "aplaudir" com entusiasmo  - e conhecimento de causa - o show (?) no camarote da falta de bom gosto.


     Alcione Dias Nazareth, nascida em 21.11l.1947, com os (bons) ensinamentos musicais aprendidos com o pai, o militar e professor de música João Carlos Dias Nazareth, mostrou desde cedo que a moreninha brejeira e faceira da terra de São José do Ribamar não veio ao mundo à passeio. Tinha o samba não somente nos pés (e no coração) mas, principalmente, no gogó; aliás, um gogó de ouro, prata e bronze que atinge com extrema facilidade todas as notas musicais fazendo-se ouvir com uma nitidez impressionante, mesmo sem a ajuda do microfone (se fosse o caso), na última fileira do teatro. Quando ela descobriu esse dom e que dele faria a sua vida, seu "ganha pão", que escreveria sua história como uma das maiores intérpretes da MPB, outras já tinham trilhado o mesmo caminho e faziam sucesso nas rádios e long-plays (lps) da vida, a exemplo de Elza Soares, outra morena que, com talento e balacubaco (nossa! que expressão mais antiquada!), já encantava platéias e seduzia Mané Garrincha, as pernas mais poderosas do futebol brasileiro de todos os tempos. Ao longo de sua discretíssima vida afetiva - talvez decepcionada com a falta de lealdade, a traição que corre nas veias de todos os homens - a Marrom mais branca que já vi em toda minha vida não se preocupou em cantar (e encantar) um único fã, mas milhões de admiradores que desejavam - e ainda desejam, of course! -  serem embalados por sua voz singular, inimitável. Alcione é uma deusa, um mito, uma verdadeira lenda viva da MPB e, mesmo antes de subir ao palco e soltar a voz, percebe-se nos bastidores todo seu carisma, a luz que emana do seu ser elegante e perfumado. Ela brilha como pessoa e esse brilho transforma-se numa luz intensa, forte, que ofusca qualquer um que se apresente com ela. Alcione não rouba a cena. Ela é a cena. Antes, durante e, principalmente, na apoteose do espetáculo quando todos se levantam para aplaudí-la, praticamente ignorando os outros artistas que se apresentaram ao seu lado. Mesmo sendo outra mulata de talento reconhecido nacional e internacionalmente como Margarete Menezes. Esta, "com muita honra" dividiu o palco com a maranhense no show "Canto pela Paz" no último domingo (dia 17) aqui no - para mim - Teatro (Municipal, deveria ser pela grandiosidade e importância, só falta as frisas e camarotes) Castro Alves. Apesar de algumas imperfeições técnicas (disfarçadas aos olhos dos leigos, desatentos) e deslizes na atuação de um ou outro que dividiu o palco com elas, Alcione "deu" com (muita) generosidade artística e grandeza de alma um pouco de sua luz para a "maga" baiana. Esta, por sua vez, não decepcionou e, como sempre, deu um "banho" de (boa) musicalidade baiana.


     Com uma personalidade forte e determinada a se fazer respeitar por seus próprios méritos, sem desejar espelhar-se (ou imitar) quem quer que fosse, Alcione mostrou para a platéia de Flávio Cavalcanti e para todo o Brasil um jeito novo de cantar o samba  com uma postura impecável de "prima donna" (?) do ritmo, a qual também sabia - como o sabe muito bem até hoje - tocar um dos instrumentos mais complexos que existe: o trompete. Para desagrado de dona Felipa, sua mãe, a qual desejava que a filha se tornasse uma exímia pianista. Quis o destino, sábio como sempre, que Alcione mostrasse à mãe que estava certa em sua escolha musical e lhe desse muito orgulho tornando-se - além de cantora - uma das maiores compositoras e instrumentistas que São Luís exportou do Maranhão para o Brasil e, consequentemente, o mundo. Tanto que recebeu ao longo da carreira - depois de anos batalhando por "um lugar ao sol" - títulos e honrarias como a Ordem do Rio Branco, a mais alta comenda do país, e a Medalha Pedro Ernesto da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Quem disser que não gosta de samba e pagode - o bom e verdadeiro - nunca assistiu um show de Alcione, ouviu um de seus discos ou presenciou teatros e casas de espetáculo, daqui e de fora, levantar em peso para requebrar os quadris ao som de suas músicas. Canções - verdadeiras obras-primas do samba - que fazem parte da sua discografia, desde A Voz do Samba (1975) até Acesa (2009), passando por preciosidades como Morte de um Poeta, Pra que Chorar, Alerta Geral, Gostoso Veneno, E Vamos à Luta, Dez Anos Depois, Fogo da Vida, Da Cor do Brasil, Emoções Reais, Promessa, Profissão: Cantora, Valeu - Uma Homenagem a Nova Geração do Samba ( que lhe rendeu o disco de ouro em 1997), Nos Bares da Vida (ao vivo) e Raridades, dentre outros. Uma larga experiência, depois de anos de obstinação e trabalho, que lhe deu o direito de interpretar (em 2007) o papel da cantora americana Lady Brown na minissérie global "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes".


     O Brasil tem muitos que (dizem) fazem samba. Mas (qause) nenhum deles, ou delas, são verdadeiramente sambistas como a Marrom. Ao vivo ou não, se fazendo presente ou, simplesmente, sendo homenageada em qualquer evento, Alcione é um dos poucos nomes da MPB que consegue lotar os espaços dedicados à boa música em qualquer dia da semana. Não foi à toa que na década de 70, ao lado de Paulo Moura, inaugurou o legendário Teatro João Caetano, no Rio (um espetáculo de casa) com o excelente projeto "Seis e Meia".


     Au-revoir para todos que me criticam ou aplaudem. Na próxima quinta-feira, se Deus quizer, aqui estarei. Eu aqui e vocês daí. C'est la vie!



                                                                                                                                                                          SANFERR, 21.07.2011

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     "As garotas são românticas quando novas e se tornam realistas quando tem filhos. Os homens, ao contrário, ficam mais românticas e sentimentais quando envelhecem".

                                       GRACE KELLY (1929-1982) atriz e princesa de Mônaco.


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quinta-feira, 14 de julho de 2011

O ASTRO OU O SEMI DEUS DA TELEVISÃO?


                                                   DANIEL FILHO,
                       AMADO POR UNS, ODIADO POR OUTROS, INVEJADO,
                                   EIS UM TALENTO INCONTESTÁVEL!


     O Brasil parou em 1977. Não por causa de um (futuro) presidente, Tancredo Neves, que haveria de morrer misteriosamente antes de tomar posse (e o povo pranteava mais ainda do que a perda física, a esperança de ver o sonho de liberdade e democracia plena, irrestrita, adiado mais uma vez) ou muito menos por um retirante nordestino (Lula) e uma mulher que foi presa, sofreu no cárcere durante quase quatro anos as atrocidades da ditadura militar (Dilma) que assumiriam o comando da nação anos depois. Mas, por conta de uma outra mulher e outro homem, os quais - mesmo numa área tão diferente da politicagem que se fazia (e será que ainda não se fáz) naqueles idos atormentados pela referida ditadura - uniram seus talentos para virar o país de "cabeça pra baixo", causar um rebuliço geral em todos os setores da sociedade, em todas as famílias, de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí, com uma estória envolvente, apaixonante, de amor e ódio, ciúme e traição. Seus nomes? Janete Clair e Daniel Filho, a "usineira de sonhos" como foi batizada pelo mestre Carlos Drummond de Andrade e o "mago das oito", responsáveis como criadora e diretor de "O Astro", a telenovela que mexeu com os hábitos noturnos dos brasileiros, alcançou altos índices de audiência no Ibope e foi um estrondoso sucesso (até) de crítica, sempre tão reticente e preconceituosa com esse tipo de cultura popular do nosso país. De socialites ao povão, dos empresários aos trabalhadores e (novamente até) os intelectuais, ricos e pobres, famosos ou anônimos, sem distinção de classes, credos e (pasmem!) religião, todo o Brasil aguardava com ansiedade Cid Moreira e Sérgio Chapellin darem o "boa noite" (depois de apresentarem, com toda elegância e fleuma britânica, as trágicas notícias do dia no Brasil e no mundo) para assistir e emocionar-se com o romance do mago trambiqueiro Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco) e a romântica Amanda Assunção (a saudosa Dina Sfat). Até a cantora Maria Betânia exigia em seus shows uma televisão no camarim para não perder o capítulo da novela, pois, além dela, outras pérolas, diamantes e esmeraldas da MPB (bons tempos àqueles que nossos ouvidos não eram prostituídos por músicas decadentes) como Bete Carvalho, Vanusa, Clara Nunes, Emílio Santiago, Rita Lee, Djavan, Francis Hime, Elza Soares e outros, faziam parte da trilha sonora. Cuoco e Dina Sfat lideravam um elenco estelar formado por nomes de peso da teledramaturgia como Toni Ramos, Elisabete Savalla, Eloísa Mafalda, Heloísa Helena, Hélio Ary, Flávio Migliaccio, Ida Gomes, Isaac Bardavid, Cleyde Blota, Telma Elita, Sílvia Salgado (estreando) e tantos outros, os quais, em grandes ou pequenos (?) papéis transformaram o texto de Janete num sucesso retumbante, inesquecível. Um elenco que deveria servir hoje em dia como exemplo e escola para muitos rostos e corpinhos bonitos, verdadeiros talentos "bundantes" e de uma nota (ops!), quer dizer, um papel só. (Se é que me entendem!)...
     Com essa nova versão que estreou anteontem (terça, dia 12) comparações surgirão - e talvez, mesmo inconscientemente, eu esteja fazendo algumas - mas serão inevitáveis. Por exemplo: gosto e admiro o trabalho de Thiago Fragoso, mas, infelizmente, nestes dois capítulos iniciais, nas cenas que ele deveria ter explodido em interpretação com a emoção do personagem Márcio Hayalla, ficou à desejar. O fato é que perguntas se fazem necessárias depois de 34 anos da exibição da novela original. (A nova geração, óbviamente, não saberá o que foi, o que significou O Astro da década de 70).  Será que a estória não sofrerá cortes abruptos, já que a novela foi compactada de 185 para 60 capítulos? Mauro Mendonça Filho, à frente da direção geral e diante do próprio Daniel Filho não sucumbirá a tentação de pedir orientação, conselhos ao mestre? (O que seria até normal - e prudente - diga-se de passagem!). E, finalmente, o elenco atual - não menos talentoso, competente - fará jus a responsabilidade de "ressuscitar" personagens como Herculano, Amanda, Márcio, Salomão, Clô, Samir e Youssef Hayalla, tia Magda, Felipe, Neco, Beatriz, Mello Assunção, Joze, etc. e tal? Não duvidando, naturalmente, da capacidade de fenômenos da interpretação como o próprio Daniel Filho, Regina Duarte, Rosamaria Murtinho e todos os demais. Só que, por exemplo - mesmo sendo a rainha das atrizes de televisão brasileiras - Regina Duarte não fará uma Clô Hayalla como Teresa Rachel. Da mesma forma que nenhuma outra atriz faria a rainha Valentine (da novela Que Rei Sou Eu?) como (também) Teresa o fez na trama assinada na década de 80 por Cassiano Gabus Mendes. Cada ator tem seu estilo próprio (e imprime isso ao personagem), seu tempo de interpretação e, quando o personagem já foi apresentado ao público, fica (quase) impossível separar o primeiro do segundo. Como, por outro lado, a viúva Porcina e Sinhôzinho Malta (Regina Duarte/Lima Duarte, em Roque Santeiro), Odete Roitmann e Maria de Fátima (Beatriz Segall/Glória Pires, em Vale Tudo) são atuações únicas, inigualáveis. Daqui há alguns anos, se fizerem o remake de Insensato Coração, ninguém chegará aos pés do nível de interpretação de Gabriel Braga Nunes como Leonardo. O olhar, os gestos, a entonação... Um grande ator! Com relação a O Astro, o telespectador (inteligente, observador) vai notar as diferenças e, mesmo sendo uma recriação dos excelentes roteiristas Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, vai ficar sempre um gostinho de "será que?..." Não tem como não ser assim. Esse é o "pecado capital" (sem trocadilhos) dos remakes. (Não seria mais prático - financeira e artísticamente falando - reapresentar as versões originais das novelas?)...
     "Toma que o filho é teu, Daniel" ou, melhor dizendo, o Cecil B. de Mille tupiniquim, nascido em 30.09.1937 no Rio de Janeiro como João Carlos Daniel, filho do ator catalão Joan Daniel Ferrer e da atriz argentina Maria Irma Lopez (Mary Daniel). Por ser uma família circense, Daniel Filho não teve uma vida comum, fácil e, desde cedo, mostrou ser diferente, ter um talento, digamos, ousado (e abusado!) em comparação aos garotos de sua idade. Aos 12 anos (pasmem!) teve um filho com a empregada da casa de seus pais, o qual recebeu o nome de João Carlos Macedo e foi criado longe dele. Somente cinquenta e seis anos depois foi reconhecido por Daniel num exame de DNA, quando os dois ficaram frente à frente e pouco (ou nada) tinham a dizer um ao outro. Não devemos julgar jamais os atos - e mistérios - insondáveis da vida de quem quer que seja, pois na maioria das vezes tiramos conclusões precipitadas pelas aparências, o diz que diz popular e não somos justos. Daniel Filho, segundo quem o conhece na intimidades - como as ex-mulheres Dorinha Duval, Bete Faria e Márcia Couto - além de Olivia Byington, com quem se casou em 2008 e os filhos Carla Daniel (atriz) e João, é um homem de conduta irreprovável, amante à moda antiga (de mandar flores, bombons, abrir a porta do carro), pai e avô carinhoso, "coruja". Ator, diretor, produtor de cinema e televisão, Daniel vai deixar seu legado como cidadão e sua herança de talento artístico para os netos Lys, Antonio, Valentina e João Paulo. Homem de personalidade forte, diz o que pensa sem a preocupação (ou intenção) de parecer agradável, simpático e, sendo assim, tornou-se admirado como pessoa, respeitado como profissional e, principalmente, bajulado por ser um dos executivos mais poderosos da Rede Globo, ocupando atualmente o previlegiado cargo de diretor-artístico da Globo Filmes. Para Daniel - segundo os próprios artistas, técnicos e funcionários da TV Globo, dos porteiros ao pessoal dos escritórios, tanto na sede da emissora na rua Lopes Quintas (Jardim Botânico, zona sul) como na Central Globo de Produção (Projac) - não existe (profissionalmente falando) ex-mulheres, filhos e muito menos "apadrinhados", se os mesmo não preencherem o principal requisito exigido por ele: talento.
     O extenso currículo do "mago das oito" é invejável e começa na década de 60 quando, ao lado de Jece Valadão, estourou as bilheterias dos cinemas com Os Cafagestes (1962) e Boca de Ouro (1963). Seus trabalhos mais recentes na telona foram A Partilha e Se Eu Fosse Você 1 e 2, sem falar no trabalho como ator em "Querido Estranho", de Ricardo Silva e Pinto. A televisão, por sua vez, hoje não teria o status de ser uma das melhores do mundo se não fosse a preciosa assinatura dele na direção de sucessos como A Rainha Louca, Sangue e Areia, Rosa Rebelde, A Cabana do Pai Tomás, Véu de Noiva, Irmãos Coragem, O Homem que Deve Morrer, Selva de Pedra, Pecado Capital, O Casarão, Duas Vidas, Espelho Mágico, Dancing Days, Brilhante e Suave Veneno, sem contar os seriados, minisséries e Casos Especiais.
     Desde anteontem ao ligar a tv às 23 hs. e ouvir, de terça a sexta, a música "Bijuterias" (João Bosco), sinta-se na obrigação de reverenciar um dos maiores diretores e atores do país. Ontem, hoje e sempre.
     Au-revoir para todos que me criticam ou aplaudem. Na próxima quinta-feira, se Deus quizer, aqui estarei. Eu aqui e vocês daí. C'est la vie!

                                                                                                                                                                     SANFERR, 14.07.2011

a ESFINGE:
     "Todo mundo perdoa tudo, menos o talento".

                                                    Oscar Wilde (1856-1900) escritor, poeta e dramaturgo irlandês.

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